Era apenas mais uma noite fria e silenciosa de inverno, não haviam nuvens no céu negro e as estrelas brilhavam felizes naquela imensidão escura, eu estava apoiado na janela do meu quarto escuro e sombrio olhando para o céu, apenas um pequeno feiche de luz passava do corredor pela porta velha de madeira entreaberta deixando uma pequena linha amarela na parede branca do quarto, meu pensamentos voavam longe buscando algo novo naquele céu, meu olhar batia de estrela em estrela esperando que alguma delas contasse alguma coisa, eu estava aflito naquela noite, eu não conseguia explicar, senti um calafrio passando por toda a minha coluna, meus pais sempre contavam que os calafrios eram causados pela presença de algum outro ser, um espírito, um anjo, um demônio, mas, calafrios eram apenas calafrios para mim. Eu senti algo passando por trás de mim, um rápido vulto, uma sombra negra, virei rapidamente para olhar e nada havia no quarto a não ser o silêncio mórbido e mortal de sempre, minha cama fria e desarrumada, o travesseiro que já possuía o formato da minha cabeça, uma pequena escrivaninha com folhas espalhadas por sobre ela, uma cadeira de madeira e só, eu não sabia o que havia passado por mim, se é que alguma coisa realmente passou, então preferi culpar o sono, era tudo fruto da minha fértil imaginação e cansada, pelo menos era assim que eu gostaria que fosse. Dei uma última olhada no céu antes de ir me deitar e uma forte luz me chamou a atenção, era branca e emanava alguns raios, forte, incandescente, de forma rápida e muda a luz caiu. Fiquei sismado, seria aquilo uma estrela cadente? Na minha inocência, fiz um pedido e fui deitar. Me acomodei na cama, tudo que eu ouvia era o som da minha respiração, me cobri para tentar amenizar o frio, apoiei a cabeça no travesseiro que afundou com o peso e permaneci alguns minutos encarando o teto branco até fechar os olhos e adormecer.
Já era de manhã quando os tímidos raios de sol invadiram meu quarto me tocando de leve o rosto, o inverno estava tão frio que até mesmo os raios solares eram gelados, ao sentir aquele brilho intenso no meu rosto, fechei os olhos com força e assim os abri. A minha primeira visão naquela manhã foi a janela brilhando com os raios solares, fiquei deitado por mais algum tempo apenas contemplando aquela linda cena, quase um quadro vivo, que eu sabia que algum tempo depois mudaria e não seria mais igual. Me espreguicei e levantei esfregando os olhos, fiz tudo que tinha para fazer em casa e logo saí.
A rua estava vazia, talvez fosse pelo horário, ainda era cedo e eu procurava algum lugar para tomar café da manhã, após algum tempo caminhando cheguei a uma padaria, simples porém limpa, entrei no recinto, o mesmo não havia ninguém apenas um balconista que ao me ver sorriu.
- Bom dia. - Disse eu ao entrar.
- Bom dia.
- Vocês servem café da manhã aqui?
- Sim, o senhor deseja café com leite ou preto?
- Com leite e um misto quente por favor.
Esse foi o nosso único diálogo, caminhei até uma mesa e sentei, fiquei esperando o café ficar pronto, enquanto esperava um vago pensamento perdido buscou o ocorrido de ontem, aquela luz que caiu do céu, o que seria aquilo? Eu ainda não estava crente que realmente era uma estrela cadente, o balconista trouxe o café da manhã porém eu estava afundado em pensamentos e acabei nem notando que o rapaz havia deixado a bandeja com o café com leite e o pequeno pão esquentado e quadrado recheado com queijo e presunto. Acho que demorei algum tempo para notar pois quando fui comer, o pão e o café já estavam frios. Não reclamei, não falei uma palavra sequer, apenas comi quieto, deixei o pagamento com uma pequena gorjeta sobre a bandeja e me retirei daquele pequeno local, estava novamente na rua, sem rumo, a rua estaria vazia se eu não tivesse avistado um rapaz do outro lado da rua, um rapaz alto, usando um sobretudo preto, algo normal naquele frio, ele estava parado com as mãos nos bolsos e parecia estar me observando, permaneci alguns segundos olhando para ele até que um ônibus cortou a nossa linha de olhar, tirando assim a visão tanto minha quanto a dele, foi uma fração de segundos até o ônibus passar, e para minha surpresa, o rapaz não estava mais lá assim que o ônibus passou. Tudo estava começando a ficar estranho, desde aquela luz caindo, o vulto, e agora esse rapaz, eu já não estava entendendo mais nada, coloquei as mãos nos bolsos e voltei a caminhar em direção da minha casa.